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O preço de esperar pelo momento ideal para viver

Entre a busca por estabilidade e o desejo de ter mais autonomia sobre o próprio tempo, uma viagem sem data de volta marcada abre espaço para questionar o lugar do trabalho, as ideias de sucesso e os planos que adiamos.

O preço de esperar pelo momento ideal para viver

Antes de partir, pedi demissão e decidi que era hora de realizar um sonho antigo: viajar pelo mundo por um período sem data definida para voltar. Em agosto, eu e meu namorado partimos com o que tínhamos, sem esperar pela conta bancária ideal ou pela certeza de que tudo daria certo. Reduzimos nossos pertences ao que cabia nos mochilões e embarcamos para Fernando de Noronha, nosso primeiro destino, ainda no Brasil. Uma semana depois, seguimos para Madri. Embora já tivesse viajado para o exterior outras vezes, sair daquele avião teve um significado diferente: pela primeira vez, não havia uma data de retorno marcada.

Dois meses e meio depois, minha relação com o tempo começa a ganhar outros contornos. A semana deixa de ser organizada em torno da chegada do fim de semana, e a segunda-feira perde parte do peso de representar o retorno à rotina. Isso não significa viver sem preocupações. A organização financeira continua sendo um desafio, especialmente quando alternamos destinos com custos tão diferentes quanto a Itália e a Indonésia. A falta de previsibilidade exige planejamento, escolhas e, por vezes, renúncias. A diferença está em tentar organizar a vida em torno das prioridades, em vez de adiar indefinidamente os próprios desejos até que todas as condições pareçam perfeitas.

Ao longo da viagem, encontrei outras pessoas vivendo períodos sabáticos — pausas temporárias nas atividades profissionais ou acadêmicas que podem durar meses ou mais. Em nossas conversas, a vontade de conhecer novos lugares frequentemente se misturava a questionamentos sobre carreira, qualidade de vida e a maneira como cada um escolhe investir o próprio tempo. Embora essas experiências não permitam afirmar que o sabático se tornou uma tendência generalizada, elas ajudam a ilustrar uma discussão mais ampla: qual é o lugar do trabalho em uma vida que também precisa comportar descanso, relações e realização pessoal?

A pandemia de Covid-19 contribuiu para ampliar esse debate ao expor vulnerabilidades e alterar rotinas. Em 2022, o Work Trend Index, levantamento da Microsoft, identificou que 53% dos entrevistados estavam mais propensos a priorizar a saúde e o bem-estar em vez do trabalho do que antes da crise sanitária. O resultado sugere uma mudança declarada de prioridades, mas não significa, necessariamente, que essas pessoas estivessem dispostas a abandonar seus empregos ou interromper suas carreiras.

Os motivos para rever a vida profissional também vão além do desejo de liberdade. Nos Estados Unidos, uma pesquisa do Pew Research Center publicada em 2022 mostrou que, entre os trabalhadores que deixaram voluntariamente seus empregos em 2021, 63% citaram a baixa remuneração como um dos motivos, e a mesma proporção mencionou a falta de oportunidades de crescimento profissional. Os dados ajudam a dimensionar a insatisfação com o trabalho, mas revelam uma realidade mais complexa do que a busca por uma vida fora do escritório: para muitos, mudar também significa procurar melhores condições de trabalho e perspectivas de futuro.

A jornalista e nômade digital Laura Castro conhece esse processo de transformação. Desde os 14 anos, pensava em morar fora do Brasil, sobretudo em busca de uma qualidade de vida diferente daquela que encontrava em São Paulo. Aos 22, mudou-se para Portugal, onde conseguiu emprego. Dois anos depois, retornou ao Brasil e, em um novo trabalho, percebeu que poderia exercer sua profissão enquanto viajava pelo mundo.

“Hoje em dia, a minha relação com o trabalho é bancar um estilo de vida que me faz feliz. E hoje eu sou feliz todos os dias, não só no sábado e domingo, ou só nas férias. Eu faço algo que eu gosto também, então não é um peso, mas eu vivo muito mais do que trabalho”, conta.

A experiência de Laura mostra que transformar a relação com o trabalho não exige, necessariamente, romper com ele. Em seu caso, foi possível conciliar a atividade profissional com um estilo de vida que considera mais satisfatório. Mas essa não é uma equação simples, nem uma possibilidade igualmente acessível a todos.

O estresse continua presente na rotina de trabalhadores ao redor do mundo. Segundo o relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, 40% dos trabalhadores entrevistados globalmente disseram ter sentido muito estresse durante boa parte do dia anterior em 2025, ante 38% em 2019. O indicador não explica, isoladamente, as causas desse sentimento nem determina qual seria a melhor resposta para cada pessoa. Ajuda, porém, a dimensionar um desafio persistente: quanto da vida estamos dispostos a dedicar ao trabalho — e o que esperamos receber em troca?

Para a psicóloga clínica Mariana Leite, parte desse desconforto está relacionada ao modelo de sucesso que associa estabilidade financeira a crescimento profissional contínuo. “As pessoas estão cada vez mais adoecidas num modelo que foi nos ensinado que era o correto, que é ter dinheiro. Para você ter dinheiro, você precisa ter sucesso na carreira; para você ter sucesso na carreira, você precisa trabalhar horas e horas e horas e horas”, afirma.

Nesse contexto, o tempo passa a ser um elemento central da discussão. Se a carreira ocupa grande parte da vida, quanto sobra para as relações, os interesses pessoais e as experiências que também dão sentido à existência? Para Mariana, questionar esse modelo não significa rejeitar o trabalho ou a estabilidade, mas ampliar a compreensão do que é uma vida bem-sucedida.

Essa percepção também aparece na maneira como Laura define suas próprias conquistas. Para ela, o sucesso está menos relacionado à acumulação de bens materiais do que à possibilidade de viver de acordo com o que considera importante.

“Se você precisa adiar a sua felicidade para algum dia da semana, por exemplo, para mim isso não é ser bem-sucedido. Sucesso pra mim é ser feliz e fazer valer cada minuto da sua existência aqui. As condições ideais elas não vão chegar, nem a minha é uma condição ideal, mas a gente é extremamente adaptável”, diz.

A fala aponta para uma contradição: passamos anos construindo as condições que acreditamos necessárias para aproveitar a vida, mas nem sempre sabemos quando será a hora de começar. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que nem todos dispõem dos mesmos recursos financeiros, profissionais ou familiares para interromper a rotina, viajar ou mudar de carreira. A possibilidade de fazer escolhas também depende das condições concretas de cada pessoa.

Há ainda o risco de transformar a própria busca por liberdade em mais uma exigência. Em uma sociedade pautada pela performance e pela necessidade constante de superar resultados, até encontrar propósito ou viver experiências extraordinárias pode se tornar uma obrigação. Para Mariana, uma vida mais autêntica não significa necessariamente largar tudo ou encontrar um trabalho apaixonante, mas ter coragem de olhar para dentro e fazer escolhas coerentes com os próprios valores. Isso não elimina as dificuldades: significa reconhecer que elas também fazem parte de qualquer caminho escolhido.

Talvez o que esteja mudando não seja apenas a maneira como as pessoas viajam, mas a própria definição do que significa ter uma vida bem-sucedida. Durante muito tempo, o roteiro convencional foi apresentado como uma garantia de realização: estudar, construir uma carreira, conquistar estabilidade financeira e adquirir bens para, finalmente, aproveitar a vida. O problema não está necessariamente nesse caminho, mas no risco de passar tanto tempo se preparando para viver que a vida acaba ficando sempre para depois.

Viajar pelo mundo era um sonho antigo, que só se tornou possível porque trabalhei e me organizei financeiramente para realizá-lo. Ainda assim, partir sem uma data de retorno definida me fez pensar em quantas vezes adiamos nossos desejos à espera do momento ideal, como se fosse possível garantir que, quando ele chegasse, teríamos a mesma saúde, disposição e vontade de hoje.

Não é preciso romantizar a incerteza para reconhecer que esperar pela segurança absoluta também tem um custo. Planejar, construir uma carreira e buscar estabilidade são partes legítimas da vida. O desafio talvez seja não permitir que a busca por essas conquistas ocupe todo o espaço que deveria existir para vivê-la.

Uma vida mais autêntica pode significar atravessar o mundo, mudar de profissão, reduzir o ritmo, passar mais tempo com a família ou simplesmente recuperar a autonomia sobre a própria rotina. Não existe uma fórmula única, tampouco a obrigação de romper com tudo o que foi construído.

Talvez a pergunta não seja se todos precisam partir, mas o que cada um está adiando enquanto espera. E, entre os planos que ainda queremos realizar e a vida que já está acontecendo, quanto espaço estamos dispostos a reservar para aquilo que, de fato, importa?

Nathali Coelho
Nathali Coelho

Nathali Coelho é jornalista, formada em Jornalismo e pós-graduada em Marketing pelo Mackenzie. Ao longo da carreira, atuou por diversos anos na área de comunicação, especialmente com assessoria de imprensa, relações com a mídia, produção de conteúdo e eventos, desenvolvendo um olhar voltado para histórias, pessoas e diferentes formas de contar uma experiência.

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